O texto que segue foi um grande erro, não por expor meus sentimentos e nem por expor um pouco do que eu era naquela época, mas por nomear esse Menino Homem. Injustamente eu fiz, porque acreditava que de alguma forma, ele era esse Menino Homem, mesmo com a pequena consciência de que estava misturando realidade e fantasia. Claro que não era ele, em nenhum dos aspectos, pois não o conhecia para tirar essas conclusões. Não tinha esse direito. Estava achando que eu era quem? Deus? Não, porque Deus não julgaria, não teria dúvidas, não ficaria entre a incerteza, simplesmente afirmaria. Não fui racional, fui impulsiva e imatura. Mas havia uma enorme necessidade de expressar esse sentimento, um desejo quase que involuntário. Foi a primeira vez que isso aconteceu, foi o primeiro texto que escrevi, talvez isso justifique a confusão, a falta de conhecimento, elaboração e diferenciação do real e irreal. Mas sem esforço, as palavras saíam como um cuspe, as mãos nervosas obedeciam ao comando traduzindo em palavras o que sentia. Muitas vezes acordei com frases prontas, que deveriam ser encaixadas no texto. Um sofrimento imenso me acompanhou nesses dias. Mas isso foi preciso para que deixasse ali a fase em que me encontrava, hoje já não me vejo naquela mulher. Eu mudei, ainda bem! Hoje sei que tudo isso foi um desabafo do universo feminino, em relação as suas expectativas frustradas perante aos homens que não se comprometem e aos sonhos inalcançáveis. Mas como tinha o pensamento constante naquele daquele momento, confundi tudo. Confusão por desejar um homem BIS (Bonito, inteligente e sedutor) e eu só queria pedir BIS! Uma fase de fraqueza ou a síndrome da Cinderela afastada do tempo. Compreensível para quem assumiu na adolescência a responsabilidade da maternidade, duas vezes. Compreensível para quem suportou a carga de uma mulher gigante. Uma menina transformada em mulher. Porque não poderia então essa mulher se transformar em menina? O que eu consegui com isso? Sofrer, sofrer e afastar quem eu queria estar perto naquele momento. Houve uma grande confusão da minha parte e hoje além de reconhecer esse erro, gostaria de me redimir, mas não sei como, por isso escrevo, mesmo sem saber se devo...
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Homem Menino?
Menino Homem?
Queria ser como o homem: sentir prazer e não me envolver.
Ou como a mulher, cujo limite de sua sensibilidade abre margem ao interesse, a futilidade, a vulgaridade, a dependência escrava para não ficar só ou mesmo a incapacidade de sobreviver só.
Não! Não queria, prefiro sofrer a ser ausente de sentimento, pois negar a dor, também faz negar a proximidade da felicidade.
Mulher de sensibilidade exacerbada, sensibilidade sem limite, mulher “talento, gana, insistência, teimosia”*, expressão! Não é à toa que a profissão a escolheu, profissão sem limite, sem rotina, profissão desafio, emoção, mil formas, “Jú mil formas, todas, atriz”*. Bailarina desde menina.
Mulher vulcão adormecido, não por falta de oportunidade, mas por falta da tal oportunidade, que consiga provocar força endógena e faça esse vulcão entrar em erupção. Mulher que canaliza essa energia para novas conquistas, novos projetos, para a arte. Até quando?
Mulher crítica, perfeccionista e seletiva, seleção não consciente, mas que infelizmente nem sempre é ao seu favor em função das armadilhas, e dependendo da armadilha torna-se prisioneira sem previsão para a sentença. No tribunal da vida, quem sonha não fica impune.
Menino de dois olhares: o maduro e o imaturo.
O primeiro, de minha preferência, traduz inteligência, seriedade, confiança, sinceridade, romantismo, sedução, desejo, erotismo, revela o homem. Olhos que lançam poções que paralisam.
O segundo, ainda infantil, que esqueceu ou que não quer crescer, denuncia o menino, põe em vista a vulgaridade, o promíscuo, a conquista momentânea. O que é ainda deslumbrado com a quantidade, não com a intensidade e deseja conquistar um império, mesmo não sendo Alexandre, O Grande. O que procura pelo fácil, pela mulher vulgar para seu gozo aliviar. Vulgar: “Baixo, habitual, comum, ínfimo, ordinário, trivial, sem valor...”
Conquistar o vulgar é fácil, não precisa de esforço, é sustentável, é subornável, não acrescenta. Qualquer coisa que ofereça para quem possui o ínfimo, torna-se grandioso. Não cansa.
Procurar pelo raro, pelo desconhecido, assumir o valioso, assusta, acovarda, traz questionamentos, incertezas, insegurança.
Conquistar o extraordinário (extra-ordinário, extra-vulgar) também pode ser fácil, mas sustentar essa sedução exige esforço, jogo, estratégia, amor. Cansa.
Mulher também madura e imatura.
A primeira, Mãe! Acima de tudo! Responsável, sincera, divertida, sempre amiga, batalhadora, perseverante...
“Mulher bonita, inteligente, interessante, cabelo bonito...” Acredita que essas palavras sejam apenas uma repetição de um diálogo. Realidade que não existe.
A segunda, que não equilibra as ações e as leva ao extremo: sonhos, sensibilidade, confiança, otimismo, expectativas, emoção... Pura ilusão!
“Menina bonita, inteligente, interessante, cabelo bonito...” Prefere acreditar que não seja apenas um diálogo que se repete. Cria a realidade que não existe.
Juju, “irmã fantasia. Desliza na vida, patina pelas adversidades, esquia pelos sonhos, surfa na vontade. Segue em frente, sem remar precisamente.”*
Mulher que não suporta pressão, mas não perde a direção. Que cansa da rotina, mas segue a rota. Que detesta regras, mas não é desregrada. Que se irrita com ordens, mas não promove desordens. Que gosta de desafios e também de elogios. “Espremida entre Baco e Apolo”*.
Não concorda com imposições e regrinhas machistas e vai atrás de seus objetivos contradizendo 100% dos conselhos, e que conselhos! Mãe, pai, irmãos e amigos, mas faz, simplesmente porque assim sente. Trai as regras para não trair o desejo. “Dribla a razão com sua pressa imprecisa”*. Concorda com Gandhi quando disse que demonstrar o amor é privilégio dos corajosos. “Jú impaciência, discreta rebeldia”*, demonstra, mas não sufoca, insiste, mas também desiste, não por fraqueza, mas porque naturalmente vai saindo da mente, se decepciona ou se desinteressa devido a falta de reciprocidade.
Menino de sotaque gaúcho, que provoca e até sufoca.
Homem de voz única, sedutora, português correto.
Homem de nome único: XXXXXXXXXXXX XXXXXXXXX
XXX de sorriso único
XXX de sorriso impreciso
XXX de sorriso menino
XXX de risada engraçada
XXX de risada disfarçada
XXX de risada atiçada
Mulher vulcão acordado, que explode de uma só vez e depois é impedido de manter seu estado de erupção. Não encontra espaço e as lavas em alta pressão tentam se esquivar pelos mínimos buracos, mas de tão pequenos que são, acabam por esfriá-las.
Menina magoada que procura em diversos lábios, a possibilidade de fuga, de esquecimento, mas não achou em nenhum momento e percebe que não são essas buscas desenfreadas que a farão encontrar a saída para as lavas.
Menina carência? Não! Por carência qualquer um desses lábios que expressasse a poesia mais bonita, soaria como feitiço.
Mulher objeto? Nunca, jamais, inadmissível!
Menina frágil, “boneca que quebra, esfacela, remodela, recria”*, que transforma um pequeno momento em quase obsessão, em quase TOC. TOC que lembra o toque... Difícil traduzir em palavras a intensidade de um sentimento, como dizer o indizível? Acontecimentos ou sentimentos inesperados não precisam de explicação ou razão. Pura emoção!
“O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis” (Fernando Pessoa).
Homem admirável que tem como ponto de apoio a profissão.
Profissão status?
Não, mas é assim que nossa sociedade interesseira a vê. É fato!
Profissional sonho de consumo de mulheres incapazes, quer dizer, sonho de consumir através de quem exerce a profissão. Hilário!
Área da profissão que realiza sonhos. Pacientes fragilizadas que confundem e transferem seus resultados a quem foi capaz de devolver a auto-estima. Perfeitamente comum.
Mas que menino não gosta de ter mulheres aos seus pés? Confunde o ego, afrouxa o superego, libera o id e o menino regride.
Profissão em constante evolução, que exige conhecimento sem limite, estudo, amadurecimento, diferencial, qualificação. Só ser médico não basta!
Quem define a posição de status não é a profissão, mas “o profissional”. Qualquer um pode atingir essa condição privilegiada, desde que trabalhe, estude, tenha esforço e dedicação. E a palavra acomodar deverá ser banida pelos que desejam brilhar.
Homem Profissional.
Homem Profissão.
Menino que não constitui relação.
Menino incoerência, contradição, onde a intenção verbalizada não corresponde à ação realizada. Palavra que encanta, atitude que desencanta...
Menino que se basta, egocêntrico, menino ainda narciso... não seria preciso!
Menino que extravasa entre ondas e golpes. Que libera nas curvas imprecisas das águas ou no oponente toda a carga emocional, renovando, suscitando a catarse.
Menino que tem como base a família, pai e mãe.
Base que não é fixa e que se perde, devido à ordem natural dos acontecimentos, a não ser que haja algum percalço.
Menino sem base talvez vire ainda mais menino diante do desequilíbrio, não tem onde se escorar, digo escora fixa. Sim existem amigos, para o primeiro alívio, existem falsos amigos que querem ver seu declínio.
Menino crepúsculo, assim foi chamado. Provavelmente porque viram a semelhança através de um par de olhos claros, não viram a essência. Infelizmente é assim que a maioria das pessoas enxerga as outras, valorizando o superficial.
Menino crepúsculo sob outro olhar: momento especial, nunca é igual, é sempre uma surpresa, tem curto prazo, não é dia nem noite, difícil prever cores e formas, belo, admirável... Menino incógnita, imprevisível, fácil de contemplar, instante mágico...
Menino platônico, que some e leva seu cheiro. Menino egoísta! Quem sabe um egoísmo inconsciente, talvez por não ter desenvolvido a capacidade de perceber que existem pessoas que querem seu bem, que se preocupam, preocupação de quem é mãe talvez. Basta apenas um sinal, uma palavra amiga, uma forma de carinho, sem a exigência da presença física. Mas não é direito exigir nada de ninguém.
Às vezes um presente, um amigo, uma amor nos é colocado a frente, mas não é visto, não é valorizado, passa despercebido ou é negligenciado porque sempre um novo objetivo nasce para ser alcançado, sem a certeza de que irá conquistá-lo.
Menino que precisa aprender:
Ver e perceber;
Olhar e enxergar;
Assistir e refletir.
Mulher/Homem/Menina/Menino
Energia que concentra confiança, romantismo, sedução, desejo, erotismo, fantasia, vulgaridade, promiscuidade, impudor, despudor, luxúria, tara, perversão... Energia que estremece, explode, turbilhão de emoções que entre quatro paredes vale, deve valer e haver para que não haja explicação, se houver explicação para isso é porque não valeu.
Mulher/Homem/Menina/Menino, vale?
Talvez não exista, talvez seja invenção, um sonho bom, talvez não tenha sido descoberto ou depende de coragem, ato de firmeza, cumplicidade, necessidade de correr riscos.
“É preciso correr riscos. Só entendemos direito o milagre da vida quando deixamos que o inesperado aconteça.” (Paulo Coelho)
Mas então? Vale?
Depende simplesmente de vontade mútua, apenas um perdido no vale, só se escuta o lamento e sem consentimento... não vale!
Homem menino?
Menino homem?
Quem sabe os dois, os dois estão perto do equilíbrio, nem menino demais, nem homem demais, nem maduro demais, nem imaturo demais. Amadurecer depressa corre o risco de apodrecer mais rápido.
Menino moleque que aos trinta e sete ainda pinta o sete.
Menino que gosta de carinho, que ronca baixinho...
Menino Homem
Homem Menino
Simplesmente
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Juliana Ayres
Fevereiro / 2010
* Fragmentos do poema Jú (eu mesma) por Ciça Alazraqui.