DESENVOLVIMENTO FÍSICO, INTELECTUAL E DA PERSONALIDADE DA CRIANÇA
1.1) Crescimento e desenvolvimento da criança
Neste capítulo abordamos o desenvolvimento da criança, estudo de interesse para um grande público que busca compreender melhor essa fase da vida e objetiva propiciar condições favoráveis, possivelmente melhores para que esse desenvolvimento torne-se próximo a um ideal.
São várias as linhas de pensamento e estudo trazendo grandes contribuições ao tema proposto, que associadas à vivência com crianças nos dão uma maior visão e compreensão sobre o assunto.
Falar em desenvolvimento de uma criança é atribuir qualidade e quantidade, para nossos estudos vamos chamar quantidade, de crescimento, ou seja, o aumento de tamanho nas estruturas físicas da criança como um todo ou partes do corpo; e por qualidade nos referimos às modificações no funcionamento do organismo e do comportamento da criança. De uma maneira geral, desenvolvimento é progredir, ir do simples para o complexo, do geral para o específico.
É importante deixar claro que não podemos separar o desenvolvimento físico, intelectual e emocional de uma criança, pois eles estão interligados, um influenciando o outro. Apenas os separamos para fins didáticos.
A aparência física de uma pessoa, por exemplo, pode influenciar positivamente ou negativamente na sua aceitação, no seu emocional e por outro lado na formação de sua personalidade, dependendo de como as pessoas reagem a seu respeito (Papalia, 1981).
Devemos ressaltar que não existe um tempo exato para o desenvolvimento da criança, há uma grande variação entre eles e às vezes a idade biológica não acompanha a cronológica, podendo estar atrás ou à frente dela. Segundo Papalia (1981), existe uma idade média para cada acontecimento, havendo uma flexibilidade. Podemos considerar apenas uma criança avançada ou com atraso quando o evento ocorre muito distante dessa idade média.
O importante é saber que todas as crianças passam pelas mesmas fases do desenvolvimento, mesmo que em tempos diferentes e por essa razão devemos observar cada criança respeitando seu ritmo e não apenas atribuir grau de comparação para uma possível avaliação.
Em relação ao desenvolvimento motor da criança segue alguns princípios como o céfalo-caudal e próximo distal, ou seja, o controle motor ocorre da cabeça para a parte mais baixa do corpo e do centro para as periferias.
O desenvolvimento cognitivo também tem suas fases determinadas, que segundo Piaget (apud Papalia, 1981), compreende os estágios sensório- motor, pré operacional, operacional concreto e níveis formais do pensamento.
Existem visões diferentes sobre como se dá o processo do desenvolvimento, a discussão fica em avaliar em até que ponto o meio e a hereditariedade exercem influência. Algumas teorias a esse respeito apontam para a visão mecanicista, organísmica e psicanalítica.
Papalia (1981), explica que esses fatores, hereditariedade e o meio, atuam em conjunto, interagindo com o indivíduo e influenciando no desenvolvimento. O estímulo que vem de fora pode agir positivamente ou negativamente no desenvolvimento de uma criança, fatores como sexo, idade, situação sócio-econômica e outros também exercem grande influência.
O meio é muito importante no processo do desenvolvimento motor, a criança tem uma natureza e passará pelas suas fases de desenvolvimento, mas influências externas podem acelerar, auxiliar ou retardar esse processo. Por exemplo, a evolução da marcha de uma criança passa pela seqüência de rastejar, engatinhar, andar e correr. Uma cobrança excessiva para que essa criança atinja o mais rápido esse processo, poderá causar um efeito contrário por estar sendo cobrada de uma tarefa muito difícil. A conseqüência vai desde a frustração, desestímulo e poderá pular etapas que futuramente acarretará em outros problemas. Por outro lado, a falta de estímulo e incentivo pode ocasionar demora no desenvolvimento. O ideal é você acompanhar o ritmo da criança, dando estímulos adequados, que auxiliem, que incentivem as descobertas respeitando todas as etapas do desenvolvimento.
Em relação ao desenvolvimento intelectual e de personalidade também dependem de fatores biológicos e do meio ambiente. Exercer a linguagem, por exemplo, depende da maturação biológica é claro e fundamentalmente do meio, a criança aprende a falar ouvindo outras pessoas falando, o mesmo ocorre com o desenvolvimento da personalidade. Uma criança que vive num laço familiar saudável, de compreensão, carinho e entendimento, terá uma influência no seu temperamento diferente daquela criança que vive num lar onde prevalece a violência, o autoritarismo, a falta de compreensão etc.
Alguns aspectos físicos, de comportamento e de inteligência são herdados, mas outra parte é influenciada pelo meio. A pessoa pode herdar uma pré-disposição para alguma tendência, mas o meio pode ou não desencadear isso. “A maturação, portanto, lança os fundamentos e o ambiente ajuda a erguer a estrutura” (Papalia, 1981, p.17).
1.2) Desenvolvimento físico
Inicialmente a criança aumenta o tamanho total de seu corpo de maneira muito rápida e o que determina esse crescimento são os fatores biológicos e a influência do meio. Por exemplo, uma criança que tem uma altura determinada geneticamente, mas que os pais possuem uma condição econômica muito baixa e por conseqüência disso não recebe uma alimentação adequada, com quantidades de nutrientes suficientes pra que cresça de maneira saudável, poderá ocasionar em doenças e até mesmo em interferência no crescimento, ficando mais baixa do que deveria se tivesse sido bem alimentada.
Do nascimento aos três anos ocorrem grandes transformações na criança e até os seis anos de idade sofrerá ainda grandes alterações no peso, altura, na musculatura, estrutura óssea, crescimento dos dentes etc. O corpo vai tomando uma proporção mais parecida com a de um adulto.
Em relação ao desenvolvimento motor, podemos observar que a criança desde o nascimento produz uma atividade corporal mesmo que inconsciente, ela chora, suga, reage aos estímulos, produz reflexos, se contrai em momentos de tensão, relaxa nas horas das mamadas etc. Numa fase posterior, o bebê passará por eventos pré-ordenados que passa dos movimentos mais simples para os mais complexos e dentro de uma média de idade. Todos os bebês passam pelas mesmas etapas, mesmo que em tempos diferentes e só irão adquirir uma habilidade motora de uma nova etapa, se a anterior for dominada.
Inicialmente avaliamos a inteligência de um bebê por suas habilidades motoras, pois o bebê não fala. Se um recém nascido vira a cabeça, sustenta o pescoço, senta sem apoio e daí em diante, isso significa que o bebê esta se desenvolvendo normalmente.
O ambiente nessa fase deve propiciar condições favoráveis para que a criança receba estímulos adequados para que possa se desenvolver, não sendo privada de interagir com o meio, caso contrário, a criança sem estímulo, sem encorajamento poderá ter seu processo retardado. Nesse caso Papalia (1981) diz que a criança alcançará a motricidade normal, porém num tempo maior que uma criança criada em condições normais. Por outro lado cobrar demais de uma criança, como já dissemos não é interessante, pois provoca ansiedade nos pais e insegurança na criança, não trazendo nenhuma eficiência no campo motor. Mais uma vez, torna-se necessário dizer que cada criança tem um ritmo e é fundamental respeitá-lo.
A criança com 3 anos de idade apresenta uma eficiência motora muito grande, já domina seu corpo e é capaz de: andar e correr com mais equilíbrio, andar e correr nas pontas dos pés, caminhar sobre linha reta, saltar, galopar, subir, arremessar, agarrar, chutar e outros (Papalia, 1981). Até os 6 anos esses movimentos vão se aperfeiçoando e a criança é capaz de realizar gestuais mais complexos e com maior facilidade.
Para que ocorra o desenvolvimento normal, “as crianças necessitam de apenas algumas coisas básicas – nutrição e assistência sanitária adequadas, liberdade de movimentarem e usarem os músculos que crescem, e uma atmosfera de amor” (Papalia, 1981, p.219).
1.3) Desenvolvimento intelectual
Assim como no plano físico, o desenvolvimento intelectual da criança depende da interação com o ambiente. A criança “não é recebedora passiva de estimulação do ambiente nem a possuidora de um conjunto pré-formado de capacidades intelectuais” (Papalia, 1981, p.137).
Como dissemos o desenvolvimento motor não se separa do intelectual, inicialmente medimos a inteligência do bebê pela sua atividade motora que no desenrolar do desenvolvimento vai abrindo espaço para atividade cognitiva, mas sua aprendizagem continua num processo ativo.
Avaliar a inteligência de um bebê sem ser pelo plano motor é muito difícil porque eles não falam, os bebês nem sempre têm vontade de responder aos estímulos, assim as capacidades comportamentais são limitadas, difíceis de serem avaliadas e existem influências externas como a ligação emocional da família, nutrição etc.
Em relação à má nutrição da criança, não só afeta o desenvolvimento físico, quanto o intelectual também, pois pode retardar o desenvolvimento mental, interferindo no processo de aprendizagem.
Antes da aquisição da linguagem, a criança passa pelo período chamado por Piaget (apud Papalia, 1981) de sensório motor, que é o comportamento inteligente da criança. A criança passa pelo primeiro estágio, que são os reflexos inicialmente percebidos pelos bebês. Esses reflexos são inteligentes e cada um forma a base para a atividade inteligente posterior. Um exemplo que os autores evidenciam é o reflexo da sucção, que permite o bebê saciar a fome quando este começa a sugar.
Os estágios seguintes darão a oportunidade do bebê experimentar primeiramente os objetos, mas sem reconhecê-los, se o objeto sai de suas mãos, é como se não existisse mais. Posteriormente a permanência do objeto é parcial, ou seja, o objeto sai da mão da criança, se continua no seu campo visual, ele lembra e o deseja, mas se sai da sua visão ele o esquece. Já na fase posterior, o bebê procura o objeto, se viu o mesmo sendo escondido e somente no estágio seguinte é que a criança tem condições de procurá-lo mesmo que este esteja oculto, começando de onde o viu pela última vez. Até esse estágio cognitivo a criança não realiza representações mentais de eventos externos, ainda faz descobertas acidentais e somente a partir dos 18 meses (idade média) é que o bebê desenvolve a capacidade de imaginar eventos e segui-los até certo grau, em outras palavras ele é capaz de pensar (Papalia, 1981). Agora a criança já tem a capacidade de procurar um objeto que não viu sendo oculto, mas não necessariamente ela o procura onde o viu pela ultima vez.
O estágio do desenvolvimento cognitivo, após ter passado pelo sensório motor é descrito por Piaget (apud Papalia, 1981) como pré-operacional, que começa por volta dos dois anos de idade e se estende até os 7 anos.
Agora a criança usa seu pensamento e começa a compreender conceitos como espaço, tempo, idade e moralidade. Ela pode lembrar do passado, falar do futuro e usa símbolos (representações pessoais que envolvem imagens visuais, auditivas ou sinestésicas que têm certa semelhança com o objeto) para representar objetos, lugares e pessoas permitindo uma participação com membros de sua cultura como explica Papalia (1981).
Nessa fase pré-operacional a criança ainda é egocêntrica, ou seja, considera seu ponto de vista como o único possível e não admite que outra pessoa tenha outro ponto de vista (Piaget, apud Papalia, 1981). Isso é claramente observado quando duas crianças conversam, onde uma fala de um assunto totalmente diferente da outra, elas não importam se a outra está interessada ou até mesmo escutando.
O raciocínio da criança pré-operacinal é ilógico, ela só é capaz de centrar a atenção em um aspecto, omitindo outros, por exemplo, se o resultado de um experimento leva em consideração a altura e a largura de um objeto, ela só poderá considerar um ou outro, não entenderá que as duas coisas são importantes para conduzir um resultado.
Muitas crianças nessa fase já freqüentam escola maternal, onde em condições normais propicia o aumento da coordenação motora grosseira e refinada, as habilidades sociais, a cooperação, as atividades de sucesso que aumentam a confiança, prosperando a auto-imagem, o desenvolvimento físico, mental e social.
Crianças que sofreram privações são mais difíceis de serem trabalhadas, de entenderem outras pessoas e de serem entendidas. É importante buscar recursos para compensarem as experiências que essas crianças não tiveram antes que atinjam a idade de escolaridade formal. “As atitudes parentais e as práticas de educação influenciam a saúde, o funcionamento emocional, o desenvolvimento da personalidade, os sistemas de valor e os códigos de moralidade, bem como o desenvolvimento intelectual” (Papalia, 1981, p.253).
A aprendizagem na infância, segundo Papalia (1981), é um processo que estabelece novos relacionamentos, ou seja, um estímulo causa uma nova resposta e esta em si pode causar uma outra resposta, estabelecendo uma corrente de aprendizagem.
Outra aprendizagem diz respeito à linguagem, a criança desde de bebê se comunica e passa por várias etapas até a aquisição da linguagem. Por volta dos 3 anos de idade, a criança tem uma linguagem mais elaborada e a partir daí o desenvolvimento se torna rápido e constante. É importante que o adulto fale claramente e corretamente com a criança, pois repetir a maneira errada que a criança fala, dá um reforço da verbalização incorreta.
Entre 3 e 4 anos, a criança usa palavras que identificam objetos, animais, partes do corpo e pessoas. Usa plural e tempo verbal, usa o eu, você e mim corretamente. A partir dos 4 anos ela começa a introduzir na fala elementos do espaço como frente, atrás, em cima, dentro etc. Entre 5 e 6 anos a linguagem da criança torna-se menos egocêntrica (repetição de palavras pelo simples prazer, sem intenção de comunicação) e mais socializada (fala com intenção de comunicação) e o vocabulário fica cada vez mais amplo com frases mais longas. A partir desse momento a linguagem torna-se mais sofisticada, as frases são mais complexas e com a gramática mais correta (Papalia, 1981). “A linguagem é uma forma de comportamento social, a maneira pela qual é usada no lar influencia a maneira pela qual as crianças se relacionam aos pais e ao mundo” (Papalia, 1981, p.245).
1.4) Desenvolvimento da personalidade
O bebê passa por uma série de emoções que não conseguimos ao certo identificar seu significado, mas que certamente terá grande influência na determinação de sua personalidade. “Sua personalidade se desenvolve em resultado da interação de seu temperamento inerente com suas primeiras experiências” (Papalia, 1981, p.172).
São várias contribuições para o estudo do desenvolvimento, entre elas as de Freud e Erikson (apud Papalia, 1981), que explicam a passagem por várias etapas e sua transição, com a finalidade das crianças se afirmarem e de se reconhecerem como sujeitos.
As experiências positivas recompensadas pelos adultos são fundamentais para estabelecerem uma relação de confiança, inicialmente com a mãe ou alguém que a substitui. O desenvolvimento emocional saudável de uma criança é resultado de um bom cuidado maternal, “a qualidade da relação mãe-filho é que vai dar a segurança da criança, condição sine qua non para uma boa formação do ego e de um bom desenvolvimento da personalidade” (Le Boulch, 1982, p.52). Carência materna origina frustrações precoces e desorganizações profundas da personalidade perceptíveis através de sintomas psicomotores como péssima integração temporal-espacial e déficit da maturação da imagem do corpo.
A diferença de sexo também tem influência na maneira em que as crianças serão educadas e conseqüentemente na construção da sua personalidade. Durante a fase pré-escolar a criança se identifica com modelos adultos e desenvolve comportamentos típicos do sexo. A diferenciação não é apenas biológica, mas fortemente cultural, certos padrões de comportamento são absorvidos pela sociedade e impostos desde cedo as crianças, sendo muitas vezes rígidos aos modelos estereotipados.
A criança que se encontra na fase pré-escolar, desenvolve muitos aspectos da personalidade que ficarão com ela a vida toda.
“As crianças nascem com vários graus de persistência, capacidade intelectual e inclinações temperamentais. Mas mesmo assim em cada uma dessas áreas o ambiente de uma criança durante os primeiros anos exerce forte influência sobre o desenvolvimento” (Papalia, 1981, p.285).
Para Le Boulch (1982), a criança a partir dos três anos percebe que sua personalidade é diferente dos modelos impostos. Ela agora tem preferência, se opõe para afirmar sua personalidade nascente.
É importante saber que cada criança tem seu temperamento, umas são mais fáceis de conduzirem e outras não. Como o adulto não conseguirá mudar o temperamento da criança, deverá segundo Papalia (1981) identificá-lo, dando auxílio para que a criança atue dentro dos limites de seu próprio temperamento, ou seja, o adulto deverá ser flexível e não impor e querer moldar a atitude do filho. Quando os pais reconhecem tais temperamentos, a probabilidade de serem rígidos, impacientes e até desenvolverem sentimento de incapacidade, por achar que os filhos não são bem educados, é menor e o relacionamento torna-se mais harmonioso.
A família cria condições para o desenvolvimento da criança, por exemplo, quem vive num lar onde os pais fazem com que as crianças entendam alguma imposição através de raciocínio e meios que desenvolvam consciência, provavelmente terão uma influência positiva na sua personalidade, ao contrário de crianças que vivem em lares violentos e autoritários, onde poderão por conta disso desenvolver futuramente atitudes delinqüentes. Nesse caso os pais precisam de instruções para ser mais sensíveis as necessidades dos filhos. “As técnicas de criação de filhos influenciam as personalidades das crianças. Traços como agressão, passividade, dependência e independência, são moldados pela maneira por que os pais tratam os filhos” (Papalia, 1981, p.296).

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