DANÇA E PSICOMOTRICIDADE
4.1) Dança, Psicomotricidade e luducidade
Depois de analisarmos os conceitos e definições de psicomotricidade e dança, podemos melhor propor a idéia de trabalhar a dança como coadjuvante no processo do desenvolvimento psicomotor da criança.
Entendemos que a melhor fase para iniciar o trabalho da dança é a partir dos três anos de idade, fase pré-escolar, onde a criança já adquiriu condição psicomotora básica para responder bem a proposta, até os seis anos de idade. A partir dessa faixa etária o trabalho da dança teria outro propósito que não abordaremos em nosso trabalho.
Vamos dar um enfoque na dança não com objetivo técnico e profissional, mas sim com o propósito educativo de forma lúdica. A preocupação maior é dar oportunidade da criança realizar movimento consciente, adquirir habilidade, resgatar gestos espontâneos, descobrir novos movimentos e não apenas repeti-los por imitação, propiciar atitudes corporais que favoreçam na aquisição da imagem corporal, lateralidade, estruturação espaço temporal, aplicação de ritmo e organização coreográfica que envolve memorização entre outros aspectos psicomotores. A dança a partir daí terá que ser um prazer para a criança e não uma imposição como acontece com as outras disciplinas curriculares, onde as regras eliminam espontaneidade da criança.
Não quer dizer que não existam regras, claro que sim, pois regras mostram que as coisas não são fáceis e que existem obstáculos a serem superados, mas não de forma rígida e adestradora como encontramos dentro de muitas salas de aula.
A dança despertará na criança o interesse por um corpo vivido, que ocupa um lugar no espaço, que tem desejos, expressões, que interage com o meio e com as pessoas.
“É nessa idade que as gesticulações e movimentos das crianças podem realizar-se em toda a sua plenitude e não estão cercados por oposições racionais. A espontaneidade motora durante as atividades de exploração permite à criança experimentar e continuar enriquecendo sua bagagem práxica” (Le Boulch, 1982, p.88).
A observação dos gestos, deslocamentos e ritmos da criança também nos dão a possibilidade de conhecê-las, sendo um grande instrumento para o educador.
Nessa fase os movimentos da criança devem ter caráter global para aos poucos progredir para movimentos mais complexos e dissociados. Para Le Boulch (1982), se abandona a atividade motora global nessa fase, a criança poderá travar seu desenvolvimento e seus progressos escolares.
A motricidade espontânea de uma criança depende de suas condições afetivas e emocionais, pois a criança reage em função das necessidades imediatas, ou seja, ela deverá estar contente com o que faz e ter uma relação harmoniosa com quem a assiste para que não cause bloqueio na espontaneidade do movimento, inibindo a expressão gestual normal e natural. Cabe ao professor criar essa atmosfera de confiança e compreensão.
Quando a criança se envolve com algo prazeroso, ela se entrega de corpo e alma, é o corpo motor e psicomotor que interage com o meio.
A criança aprende brincando, pois leva a sério o que está fazendo, com isso ela está construindo a si mesma e sua identidade (Velasco, 1996). Dançar de forma brincada favorece a expressão da personalidade, na evolução da imagem do corpo, incide na autonomia e na socialização, pois a criança adquire confiança nela mesma, conhece suas possibilidades, limites e aprende a cooperar.
A atividade lúdica é instrumento de aprendizagem, pois utiliza imagens e representações que oferecem a necessidade de pensar e raciocinar, sendo um veículo para acelerar o desenvolvimento de capacidades cognitivas (Papalia, 1981).
Piaget (apud Papalia, 1981), vê a atividade lúdica como um modo de aprender sobre coisas novas e objetos, consolidando e ampliando conceitos e habilidades, integrando o pensamento com ações.
“O estágio dos 3 aos 6 anos é um período transitório tanto na estruturação espaço temporal quanto na estruturação do esquema corporal. A educação psicomotora deve preparar a criança a passar sem produzir uma ruptura entre o universo mágico no qual se projeta sua subjetividade e o universo ande reina uma organização e uma estrutura” (Le Boulch, 1982, p.85).
“Através da atividade lúdica as crianças crescem. Aprendem a usar os músculos; coordenam o que vêem com o que fazem; e adquirem domínio sobre o corpo. Descobrem como é o mundo e como elas são. Adquirem novas habilidades e aprendem as situações apropriadas para usá-las. Experimentam diversos aspectos da vida. Enfrentam emoções complexas e conflitantes reencenando a vida real. O brincar é tanto uma parte das vidas das crianças que elas não diferenciam completamente a realidade da fantasia” (Papalia, 1981 p.257).
Quando a criança vivencia de forma lúdica, ela brinca, e essa brincadeira é muito importante para que ela satisfaça seus desejos ou coloca-os de forma inconsciente, podendo estar antecipando seu futuro. Ela expressa-se no real, estando de alguma forma presentificando o passado, modificando o presente ou antecipando o futuro, ela elabora o que vem a ser mais tarde resoluções para os acontecimentos (Velasco, 1996), dessa forma ela se faz sujeito.
Para Papalia (1981), quando a criança faz de conta, muitas vezes está usando uma estratégia para trabalhar seus medos, seus fantasmas, lidar com seus conflitos emocionais e satisfazerem suas necessidades de domínio de situações de vida.
“No jogo da vida ganhamos e perdemos algo em cada ação, por mínimo que seja. É a partir desse momento que a criança forma consciência de si como individuo, que percebe o valor da morte” (Velasco, 1996, p.17).
Aprender de forma lúdica contribui para o surgimento de todas as nossas expressões psicomotoras de maneira natural e prazerosa e “permitir brincar a criança é tarefa essencial de educador” (Le Boulch, 1982, p.139).
4.2) Dança e desenvolvimento psicomotor: algumas sugestões
Tentaremos mostrar nessas linhas a íntima relação entre o resultado que o trabalho da dança proporciona e o desenvolvimento das condutas psicomotoras da criança.
Para vivenciar a dança devemos entregar a nossa imaginação e deixar que as próprias crianças também criem situações para o desenrolar das aulas. O professor deve propor atividades e não impor, tornando-se um condutor participante, utilizando uma linguagem coerente com a faixa etária. Algumas sugestões são propostas, mas mudanças e adaptações devem ser feitas para a realidade de cada grupo ou modificar a situação proposta para criança que encontra dificuldade.
Aprendendo dança a criança estimula o equilíbrio, e a forma lúdica trás muita atenção e concentração. O equilíbrio pode ser estático ou dinâmico, em relação ao deslocamento no espaço. A dança requer muito equilíbrio e exige um trabalho de consciência corporal, a criança adquire consciência do seu eixo corporal, dos seus lados e muitos dos exercícios são destinados a esse propósito. Na aula de dança utilizamos uma barra de apoio justamente para dar suporte para que a criança sinta-se segura, testando suas capacidades. Segundo Masson (1988), o trabalho na barra ajuda a pessoa a encontrar o equilíbrio de seu corpo e a afirmar a confiança em si. Aos poucos o contato com essa barra vai diminuído e a criança poderá experimentar os mesmos exercícios sem apoio. Na fase em questão a barra só é utilizada para movimentos simples e bilaterais, o trabalho unilateral deve ser proposto a partir dos sete ou oito anos quando a criança já dissocia os movimentos.
É desenvolvido trabalho de conhecimento do eixo corporal através de transferência de pesos, mudanças de apoio etc. O centro de gravidade muda em relação à posição que o corpo assume e esse tenderá a ajustar-se de maneira a atingir um equilíbrio.
Propor situações de equilíbrio estático, ou seja, sem movimentar, sobre as duas pernas com diferentes bases (pés unidos, afastados, um na frente do outro etc), na meia ponta dos pés, variando as bases e a posição do corpo, sobre uma perna em várias posições, sobre algum objeto como pneus, cordas, caixas e outros materiais, sobre diferentes apoios como, joelhos, uma mão e um pé, um joelho, um pé, uma mão e um cotovelo e muitas outras variações, sempre com a preocupação de não colocar a integridade física da criança em risco, atendendo a exigência da clientela de acordo com a faixa etária e a desenvoltura da turma. Equilíbrio com o corpo em movimento, andando de diferentes formas, com deslocamentos livres, na meia ponta, saltando, com mudança de plano, mudança de base, com diferentes posições do corpo, fazendo paradas bruscas, enfim usando muita criatividade e deixando a criança explorar sua imaginação.
Na dança podemos exercitar várias possibilidades de equilíbrio sendo este a base da coordenação dinâmica global.
O trabalho da coordenação dinâmica global ocorre devido a grande solicitação motora e muscular que as atividades requerem. Saltar, pular, andar e correr são alguns exemplos de atividades que devem ser propostas de variadas formas. Utilizar imagens de animais, para estimular os saltos, por exemplo, como coelho, sapo, canguru entre outros. Pular obstáculos utilizando objetos como cordas, colchonetes, bambolês e usando situações imaginárias como saltar sobre uma fogueira, sobre um rio cheio de jacarés para saltos mais longos, pular para alcançar uma estrela, para saltos altos, por exemplo. Andar ou correr em diversas situações com passos curtos, passos largos, sobre linhas retas, curvas, de lado, de costas etc. O piso onde a criança realiza essas atividades deve ser adequado, pois a possibilidade de queda é grande visto que a criança ainda está descobrindo e experimentando a movimentação.
A dança trabalha com respiração consciente, os movimentos devem ser feitos sem levarem a criança ao cansaço. Ensinar a respirar de acordo com impulsos, contrações, saltos, estimulam a uma melhor execução do movimento como também uma boa oxigenação no organismo. Pedir para a criança sentar na posição de “borboleta”, encher o peito de ar e soprar uma vela imaginária enquanto projeta o tronco para baixo ou inspirar com postura de bailarina com o tronco reto e expirar com postura de velhinho cansado, contraindo o tronco são dois exemplos de muitas atividades que utilizam a respiração.
As atividades propostas estimularão as crianças a desenvolverem a coordenação viso motora, quando essas visualizam objetos ou pessoas realizando ações de interação.
Na dança existe um grande intercâmbio entre as pessoas, elas devem dançar em harmonia, sentirem umas as outras, se olharem. A dança trabalha muito esse lado de socializar, de interagir, de cooperar para que algo em comum se concretize. É preciso também estimular a confiança, pois um pode precisar da ajuda do outro em alguns momentos para que a tarefa seja cumprida. A progressão para um trabalho em grupo é necessária, a criança deverá fazer trabalho individual, com o outro e com o grupo. É fundamental que a criança tenha a chance de desenvolver da melhor maneira suas potencialidades e o contato com crianças da mesma idade torna isso possível através de tarefas individuais e coletivas.
“As crianças progridem do brincar sozinhas para brincarem ao lado de outras, mas não com elas, e finalmente brincam cooperativamente e interagem com elas” (Papalia, 1981, p.260).
A criança leva em conta o interesse do grupo, iniciando seu preparo para ser um adulto e cidadão na sociedade. Essa troca entre elas faz com que a criança interiorize valores. Uma forma de aproximar as crianças é colocá-las juntas para arrumarem o material, dessa forma trabalham a cooperação para atingirem o objetivo proposto.
Devemos ficar atentos também porque na dança existe muita competição no sentido negativo, estando mais visível a nível profissional. A competição saudável é boa, estimula a criança a superar barreiras, a querer evoluir e é esse lado que devemos estimular.
O esquema corporal é desenvolvido com a dança, a criança aprende a vivenciar seu corpo, a expressar todas suas emoções e desejos. A criança mergulha no universo do corpo vivido, sem ter que se preocupar com a estética do movimento, mas apenas com o prazer que a dança proporciona. Os exercícios estimularão a percepção, reconhecimento de partes do corpo, segmentos e eixo corporal. É interessante colocar atividades que a criança tenha que tocar em partes do corpo, movimentar articulações a fim de conhecer, interiorizar e relacionar aos nomes das diferentes partes do corpo. Essa associação da verbalização com as percepções táteis e cinestésicas é fundamental para a estruturação da imagem e esquema corporal. O espelho utilizado nas aulas de dança também é elemento imprescindível nessa aquisição porque também associa a percepção visual, sendo ainda mais um elemento para a criança reconhecer e perceber as partes de seu corpo.
O trabalho da dança faz a criança conhecer todas as possibilidades de movimentos, desde os dedos dos pés e das mãos até as grandes articulações. A criança vai sentindo seu corpo e começa a usá-lo, a descobri-lo e com a maturação e a estimulação ela começa a controlar seus gestos de maneira consciente. Através dessa relação de interação com pessoas, meio e objetos que a criança reconhece partes de seu corpo e vai adquirindo noção de seu tamanho.
Devido a grande estimulação e grande solicitação de movimento de todas as partes do corpo, o controle psicomotor da criança vai sendo apurado. É importante deixar claro que não devemos forçar o trabalho, temos que estar conscientes em darmos estímulos adequados a cada faixa etária, respeitando a individualidade de cada um, a escolha certa das atividades deve coincidir com interesse e aptidões em relação à fase em que se encontram. Devemos respeitar o grau de dificuldade, reduzindo ou aumentando de maneira progressiva para não causar desestímulos e frustrações. Colocar exercícios difíceis demais fará com que as crianças percam mais rapidamente o interesse e acelerar a atividade poderá causar algum tipo de bloqueio. Estímulos demais não são aprendidos, confundem a mente.
A dança ajuda a criança a afirmar sua lateralidade, ao fazer um movimento ela deverá ter livre escolha de qual lado atuar, num salto, por exemplo, a criança utilizará sua perna de impulsão sem ter que pensar com qual saltar. Na idade proposta todo o trabalho deve ser de forma global, a criança ainda não tem a lateralidade bem resolvida e não compreende os conceitos de direita e esquerda. Sempre ao propor um movimento deixar a criança escolher o lado para depois pedir para trocar. Em muitos exercícios como o “galope”, saltos consecutivos para frente e com a mesma perna, a criança tem dificuldade de executar com os dois lados, nesse caso é importante deixar a criança livre e não impor uma situação difícil. O adulto deverá facilitar tais condições para que a criança atue livremente e não impor fatores que possam bloquear sua espontaneidade, a ação educativa é permitir que a criança execute sua motricidade global para conquistar e consolidar sua lateralidade.
A criança experimenta os dois lados corporais de forma natural até ter conhecimento e ter domínio de suas partes. Segundo Coste (1992), a dominância lateral não é total nem absoluta, só é mais marcada. Depois que os movimentos se combinam e organizam numa intenção motora, dançando, por exemplo, é que o lado predominante irá se ajustar a essa motricidade e é por volta dos seis anos que a criança define sua lateralidade. Em razão disto como já foi dito, devemos proporcionar uma experimentação do corpo de forma global.
“Permitir a criança organizar suas atividades motoras globais é a ação educativa fundamental. Desse modo, coloca-se a criança em melhores condições para constituir uma lateralização homogenia e coerente” (Le Boulch, 1982, p.95).
A orientação corporal envolve memória, concentração, tono e dissociação de movimento. A dança requer da criança todas essas características podendo perfeitamente ser transferida para o plano cognitivo. Uma seqüência de movimentos por mais simples que seja, trabalha com a memorização quando repetida pela criança, a concentração para realizar algum movimento também é imprescindível e o tono está presente em todas as atitudes. É importante que a criança pense no movimento, tome consciência de seus atos motores e não apenas repita o que lhe foi oferecido. A ação psicomotora se dá através da atenção centrada sobre si mesmo. Se não houver a entrega durante o exercício, este não é um exercício psicomotor. O exercício em psicomotricidade necessita de atenção para que o trabalho não se perca, ele é um meio e não um fim.
“O papel do educador será o de permitir a criança oscilar a atenção entre o fim que ela persegue (intencionalidade do ato) e o que ela sente quando faz o ato” (Le Boulch, 1982, p.101).
Uma vez aprendido o movimento, a criança tem necessidade de repeti-lo até automatizá-lo. “Com a repetição do movimento pelo simples prazer, a criança se educa” (Velasco, 1996, p.79). Uma vez automatizado corretamente, pode haver novas aquisições, acrescentar algo naquele movimento achando a melhor forma para executá-lo, buscando sua perfeição. Dessa maneira haverá atenção a respeito do referido movimento, pois quando isso não ocorre o movimento deixa de ser psicomotor. Mecanizar o movimento e repeti-lo sem nenhum propósito não trás vantagens no plano psicomotor.
Como já dissemos o tono é responsável por todos nossos atos motores, e como a dança é um ato motor com interações mais profundas, podemos dizer que o tono dança, que está presente em cada gestual e irá produzir cada movimento. Alternância do estático para o dinâmico pode ser exemplificado como a brincadeira da estátua, dança das cadeiras, boneca de pano e de madeira entre outras que trabalham com a percepção corporal relacionada ao tono.
Nessa fase a dissociação dos movimentos ainda não ocorre, por isso a importância da experimentação de movimentos globais, a criança não consegue pensar em movimentos concomitantes, ela centra a atenção em algum aspecto e não se preocupa com o outro ou não consegue realizá-lo.
A relação orientação temporal e espacial estão intimamente ligadas na dança. O movimento ocorre dentro de um determinado tempo, com velocidade variada de acordo com um ritmo, num determinado espaço. O corpo se projeta no espaço e essa descoberta dá a criança noções de suas possibilidades quanto ao tamanho do movimento, em como se portar com a atitude corporal. O corpo inicialmente é o termo de referência. “Os gestos e os movimentos da criança devem se ajustar ao tempo e aos espaços exteriores sem perder a naturalidade e a harmonia” (Le Boulch, 1982 p.186).
Quando dançamos, percebemos o espaço a nossa volta contribuindo assim para a orientação espacial. Possibilitar a criança explorar direções, através de parte do corpo que se movimenta ou para onde esse corpo se dirige (frente, atrás, lados, diagonais, acima, abaixo). Trabalhar com níveis, ou seja, movimentos realizados em relação à altura (alto, médio e baixo). Dimensão, em relação ao tamanho do movimento (pequeno, médio e grande) e distância adquirindo noção de perto e longe. O trabalho de organização do espaço dentro de um grupo quando correm, trombam também permite o ajustamento da criança, ficando mais atenta e cuidadosa, desviando de pessoas ou objetos para evitar possíveis acidentes. O trabalho de arrumação do local utilizado com objetos é uma forma da criança ter uma representação mental do espaço, por isso a importância dela participar desse processo.
O ritmo está presente em todo ser humano e na natureza. Nas aulas de dança o objetivo é permitir que a criança se expresse através de ritmos motores espontâneos e interiorize esses ritmos motores corporais. Perceber ritmos exteriores e sincronizá-los a suportes sonoros de estruturas rítmicas também é objetivo da aula de dança.
A dança nos remete a experimentar movimentos em determinados ritmos e essa consciência exige muita sensibilidade para que a criança perceba e diferencie as nuances melódicas e tenha reações musculares tônicas sobre o tempo acentuado.
A música tem uma importância fundamental na extensão do universo lúdico e para a realização dos movimentos, pois através dela se desenvolve noções de ritmo, noções de tempo, velocidade de execução dos movimentos sendo ainda um elemento motivante. Numa aula de dança todo movimento é executado no “oito” da música, mas quando se trata de criança devemos deixar fluir sua movimentação sem cobrar uma exatidão no acompanhamento. Essa educação também é conquistada com aulas bem dirigidas.
Acompanhar o ritmo com palmas, com pés, com batidas no corpo, assobios, estalos dos dedos etc, também ajudam na construção do ritmo. Rodas infantis acompanhadas de música cantada pelas próprias crianças também são muito utilizadas, permitindo trabalhar uma estreita relação entre as crianças, por estarem em contato físico. Essa atividade também permite que crianças mais tímidas sejam levadas pelas outras sem constrangimento. O canto com movimento, ajuda a criança a sentir identidade rítmica quando associa movimento do corpo com sons musicais sendo este um estágio prévio no ajustamento a um suporte musical imposto.
Segundo Wells (1977), o ensino de dança deve compreender esses elementos: flexionar, levantar, descer, inclinar, puxar, curvar, rotar, circular, torcer, deslocar, apalpar, balançar, bater, deslizar, empurrar, jogar, caminhar, correr saltar, saltaricar e pular. Sempre variando a dinâmica do movimento, forte, leve e moderado. Experimentação de movimentos com peso e leveza. Usar vários pontos de apoio com o corpo, possibilitando que a criança rasteje, role e engatinhe. A exploração do espaço como já dissemos é muito importante, variando sempre a direção, nível, dimensão e distância. Mudança de ritmos, exercícios de respiração, contração e relaxamento também são essenciais para uma boa aula. A dramatização também faz parte de uma aula de dança, onde a criança de forma natural imita animais, objetos, outras pessoas e fazer esse trabalho através de estórias conhecidas e desconhecidas, inventada pelo professor ou pelos alunos enriquecem o repertório imaginário da criança. Cabe a cada profissional criar e recriar situações que favoreçam o aprendizado.
Depois de uma aula de dança é necessário que coloquemos as crianças para se acalmarem, respeitando sua necessidade de repouso. O trabalho as deixa muito excitadas e nada melhor que colocá-las para descansarem ouvindo uma música, uma estória, seus batimentos cardíacos, desenhar algo sobre a aula, para enfim, relaxar. Esse processo ajuda a criança a ficar mais equilibrada emocionalmente e fisicamente é claro, sem querer dicotomizar e permite que a criança pense no que foi trabalhado fixando aquisições que foram realizadas.
A criança é muito sincera, ela estará mostrando através de suas reações se alguma coisa é ou não prazerosa. Devemos sempre puxar pelo lado agradável e estimular para que suas emoções transpareçam em todo seu corpo. Em muitas apresentações de dança as crianças ficam tensas apenas repetindo o movimento que lhe foi imposto; assim como um ator, por exemplo, temos os atores de verdade que se emocionam que sentem de corpo e alma o que estão representando e encontramos os repetidores de diálogos, que decoram o texto e o depositam ali sem nenhuma carga emocional.
Não devemos impor a dança, temos que tentar tirar o que há de movimento espontâneo em cada criança, no balé clássico, por exemplo, existe uma regra disciplinadora, movimentos perfeitos que muitas vezes acabam causando frustrações em algumas crianças, por serem difíceis de executar, por serem cansativos, repetitivos etc. Devemos fazer com que a criança conheça seu próprio corpo, descubra suas possibilidades, dar a oportunidade da criança desenhar seus movimentos agindo apenas como facilitador, orientador nesse processo. Nós damos o suporte, damos o desenho e a criança colore, nós mostramos a idéia e a criança cria suas formas de maneira orgânica.
Com toda essas preocupações, as crianças suportarão melhor a pressão da responsabilidade, serão mais criativas para solucionar problemas e com certeza mais seguras para enfrentarem a vida.
Mais tarde, quando a criança tiver noção de suas escolhas, quando já conhece inteiramente seu corpo, suas possibilidades, aí sim ela poderá partir para a dança como plasticidade, com regras e movimentos perfeitos, técnica perfeita. Desse modo a dança virá mais bonita, mais sentida, fruto de um desenvolvimento bem sucedido.

Nenhum comentário:
Postar um comentário